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segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Tatuagem


Um conjunto, ou uma fileira de rosas vermelhas desenhadas com eximia perfeição, contornavam um outro desenho de difícil interpretação mesmo com a aproximação visual, em um dos braços daquele homem. Olhar para aquelas rosas causavam uma espécie de torpor, embriagava. Jamais tinha visto um desenho assim. Sabemos que quando se desenha algo no corpo há no desenho um significado único, pessoal, intransferível. Símbolos dos mais diversos possíveis, que tiveram seu inicio como sinal de guerra entre os povos primitivos, mais tarde como ornamentação de rituais, até o estigma de presidiários num ato de rebeldia. Hoje o homem necessita carimbar na pele, desejos, sonhos, amores, palavras de fé e esperança, como se com aquele carimbo pudesse introjetar em si, fatos , pessoas, alegrias, tristezas, enfim, um punhado de significantes dentro de um significado.

Mas, aquelas rosas que entorpeciam significavam o que?

A primeira indagação  de quem vê, é: Rosas vermelhas desenhadas no braço de um homem! Que tipo de homem escolhe rosas para tatuar?
Mas, aquele desenho não era formado só de rosas, havia um outro,  indecifrável.

Homem difícil de esquecer, deixava na memória a marca do desenho, como deixava no corpo de uma mulher sensações jamais vivenciadas antes.

Não, não era de suavidade, era firme, tocava cada parte do corpo feminino como se estivesse fazendo uma escultura única, a primeira e única. Braços fortes, sabia envolver. Rosto enigmático que com os olhos sabia seduzir “Comia a mulher com os olhos como dizem por ai.”

Mas o que estava desenhado no centro daquelas rosas de cor vermelha como sangue com tamanha presteza?

Ao ser indagado apenas dizia: “É O QUE VOCÊ VÊ”.

Ah!, tinha defeito sim. Se assumia como dependente químico, e por esta razão não fazia sexo mais de uma vez com uma mulher. Numa entrega perfeita e total, todos os cinco sentidos eram vivenciados á dois numa cadência de orquestra extremamente afinada. O toque, o cheiro de suor e sexo eram estonteantes. Seria o efeito da cocaína? Não, era perfeito demais, pode ser que ele acreditasse que sim, não sei. Sei que ficou na memória, no corpo, nos genitais, na mente, com gozos contínuos.

Seria o efeito da tatuagem ? Não sei, sei que entorpecia e levava a um ” frenezi “ total.

Apesar de ser um homem do mundo, sempre estava envolvido em causas sociais.Tentara várias vezes deixar o vicio e por vezes ficava tempos “limpo”, mas voltava. Parecia ser seu único e verdadeiro vinculo, o vicio.

Eu haveria de decifrar aquele desenho, mas tinha que voltar a realidade naquele momento de “torpor” . Fixei meus olhos no desenho, mas tudo ficava meio embaralhado. Entorpecida de tesão e prazer e assim tão próxima, era impossível. Quanto mais olhava aquelas rosas mais tesão, mais excitada ficava e o desejo era ter aquele homem dentro de meu corpo, perpetuado.
Durante um segundo de lucidez, me afastei um pouco e consegui decifrar o que estava tatuado no meio das rosas!.

UMA VAGINA EM TODOS OS SEUS DETALHES, COM TRAÇOS NEGROS, RODEADA POR ROSAS VERMELHAS.

Simplesmente perfeita.

Ao dizer o que havia visto, emudeceu e em poucos minutos se foi.

Jamais esquecerei aquele desenho, aquele homem, assim como jamais saberei o motivo da escolha de uma vagina entre rosas vermelhas perpetuadas em um de seus braços.
O enigma permanece, a vontade demora e o delírio fica guardado na memória como tatuagem.

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