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terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Lava a roupa todo dia...



Anos de chumbo aqueles, nos meados dos 70, ato institucional número 5 literalmente bombando na praça, aliás nas praças, ruas, avenidas, alamedas o escambau. Em todos os quadrantes, menos naquela república de estudantes de engenharia no interior paulista, onde a democracia era praticada todo dia, toda hora, a cada momento. Éramos seis, dois em cada quarto da casa desfigurada para engordar o bolso do locador. A ampla sala da frente fora cortada da planta principal para servir de salão comercial e um corredor levava ao restante da edificação, onde nos instalamos.
Que maravilha! A república, que existe até hoje, tinha um colegiado que deliberava sobre tudo, desde o número de bifes de cada refeição à escala dos compradores e do orçamento para “fazer despesa” até a escolha da empregada. Esta sim uma das melhores partes daquele sadio e republicano exercício.
Não sei por que a rotatividade era tão grande. Das empregadas, lógico. Numa dessas ocasiões, Dulcinéia foi escolhida por unanimidade, melhor ainda, foi aclamada! O melhor par de joelhos que já havíamos visto em nossas vidas e os complementos, acima e abaixo do “Equador”, não destoavam nem um só milímetro deles. E a pele então? Jambo aveludado, apetitosa de montão a danada.
Havia chegado o melhor momento daquela instituição, daquele abate, digo logradouro. Até hoje, várias décadas depois, nos encontramos anualmente e ninguém consegue explicar a harmonia que passou a reinar naquele local. Toda semana, pelo menos uma vez ou por um período – curso de engenharia plena é integral – ou alguém estava doente ou tinha que estudar alguma matéria em especial. E que bela matéria!
O que eu sei é que embora todo mundo tivesse suas namoradinhas, as de boas e as de más famílias, pelo menos uma vez por semana aqueles estudantes tinham seu ânimo renovado. Bela turma aquela, acredite se quiser, ninguém admite absolutamente nada até hoje, mas os sorrisinhos amarelos persistem.
Dulcinéia era prendada. O bife nunca estava bem passado, o arroz parecia de japonês e o feijão aguado, mas andávamos numa estica danada. Oh mulher boa de tanque e ferro de passar, sô. Não tem até hoje Brastemp eletrônica para lavar e quarar roupas como ela fazia. As camisas ficavam branquinhas, as calças com vinco, as cuecas sem, enfim, tudo nos trinques, perfeito.
Talvez o segredo tenha sido um dos nossos colegas, que deve ter colaborado muito com o capricho da Dulcinéia no tanque. Um belo dia, eu e meu companheiro de quarto tivemos uma tarde livre por força maior: a falta do professor. Ao chegarmos em casa fomos abordados pelo comerciante da frente, que fazia e vendia boxes de alumínio para banheiros.
Seo Pérsio queria porque queria nos convencer de todas as formas e maneiras a abdicar de um pedaço do nosso quintal para ele expandir seu negócio. De jeito nenhum. Aquele quintal era fundamental para as nossas festas de arromba, de grandes histórias, mas essa é outra história.
Para nos convencer de que o “espacinho” que ele queria não nos faria falta, foi ele nos puxando para os fundos afim de mostrar “in loco” a área em questão. Na fronteira entre o corpo da casa e o quintal uma cena se descortinou para nós, que continuamos em respeitoso silêncio: Um dos nossos colegas comia por traz a doce Dulcinéia, que batia roupa no tanque com vigor e cantarolava baixinho uma cantiga dos “Secos e Molhados”. Memorável.

Mr.Petrus*

*Engenheiro e jornalista. Agora colaborando em APerversaInfiel.

APerversaInfiel

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